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Playboy é cultura, mas Dimenstein, certamente, não é.

07/12/2009

Maria ZildaO governo Lula quer fazer o chamado “vale cultura”. Um dinheiro a mais na bolsa das pessoas, especial para a compra de revistas, CDs, jornais etc. O governo ficou contente com o aquecimento do mercado via bolsas e, então, imagina que pode continuar nessa linha. Tentando obstruir essa linha de atuação que, enfim, por populismo ou não, dá êxitos ao governo, a oposição busca argumentos técnicos. Aparece em cena, então, a questão de se saber “o que é cultura”. Para se dar o “vale-cultura”, dizem os oposicionistas, nós devemos dizer ao governo (e talvez ao povo), o que é cultura. Um jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, preocupadíssimo em saber se a revista Playboy vai ou não poder ser comprada pela ajuda governamental ao cidadão, lançou a frase “mulher pelada não é cultura”. Junto com isso, de subproduto, atacou também o que chamou de “gibis” (ele não usou, parece que propositalmente, o nome HQ), que também não seriam cultura.

Não quero aqui entrar no mérito do tipo de política social que está em jogo, a que é empurrada pelo governo e que a oposição tenta barrar. O debate estritamente político, aqui, não me interessa (já me manifestei sobre a política de bolsa no Estadão e outros lugares). Acho que a filosofia pode ajudar mais, neste caso específico, se colaborar na questão de vermos como que empregamos a palavra cultura e, então, sairmos do emaranhado técnico da dita falta de critérios para colocar na bolsa do “vale cultura” esta ou aquela peça.

Quando percorremos nosso universo de expressões, percebemos que usamos a palavra cultura para várias atividades e objetos. Peneirando aqui e ali, não creio que possamos, para fins utilitários, ir além das quatro acepções de cultura que o professor Alfredo Bosi, num estudo dos anos setenta, elencou: cultura erudita, cultura acadêmica, cultura popular e cultura de massas. Exponho abaixo do que se trata, sem seguir à risca Bosi, e sim traduzindo tudo para a minha perspectiva em relação a cada acepção.

A cultura erudita tem um forte acento nos produtos do espírito. Ela diz respeito aos clássicos da literatura, artes plásticas, música etc. Quem escuta Bach, quem lê Dante ou Thomas Morus, ou quem é capaz de apreciar Rembrandt ou o trabalho de um corpo de balé de grandes teatros nacionais usufruiu da cultura como cultura erudita. Por razões de nossas disparidades econômicas, essa cultura erudita é, às vezes, chamada de cultura de elite, ainda que vários membros de nossa elite econômica possam muito bem não saber nada disso – o que não seria de se estranhar.

Uma parte da cultura clássica, ao se agrupar à ciência e à técnica, forma a cultura acadêmica. Pode-se fazer uma boa universidade e aprender as Leis de Newton não como no colégio, mas por meio do cálculo superior, as derivadas e integrais, e ajustar a isso uma leitura de filósofos como Kant ou Voltaire. Pode-se articular esse aprendizado da física com técnicas computacionais e, então, para deslizar melhor nos aparelhos que se quer usar ou contruir, ter o conhecimento bastante bom de línguas estrangeiras. Isso tudo, nas universidades públicas e algumas (raras) particulares, no Brasil, é o que estaria, em princípio, disposto para a classe média – e de fato esteve, ao menos até pouco tempo.

A cultura popular é a que é mais dependente do campo de articulação entre o espiritual e o material. É o lugar em que a acepção antropológica de cultura mais vem ao caso. Cultura, aqui, pode ser um apetrecho de trabalho ou de caça, mas pode ser também, por exemplo, a música sertaneja em suas ligações com a geografia e a história de cada um.  Nesse caso, trejeitos e comportamentos corporais importam muito, e até fazem parte, mesmo, de aspecto substancial do que se entende por cultura – as danças chamadas folclóricas entram aqui como uma forma musicada da expressão corporal do andar, sentar e trabalhar. Cultura, nesse caso, lembra o cultuar, o que vale para o culto dos deuses e o cultivo da terra. Os vários aspectos da palavra cultura, sempre articulando de modo bem claro o que é o espiritual e o que é o material, ganham relevância no âmbito da cultura popular. É claro que essa cultura é a dita “do povo”. Ela pode “subir” para a universidade em forma de objeto de estudos, o que não raro ocorre. E pode, até mesmo, se assentar neste âmbito. Por exemplo, uma língua nativa pode ser objeto de construção de um dicionário pela pesquisa universitária, e uma erva cabocla pode virar um remédio oficial em um departamento de farmacologia de uma universidade e, a partir daí, ganhar o mercado.

Ah, falamos no mercado. É aí que todos esses aspectos da cultura são modificados e aproveitados. Em uma sociedade de mercado – que é a nossa, e do qual não tenho interesse em sair -, tanto a cultura erudita quanto a acadêmica e a popular podem ser transformadas para o processo de mercadorização ou modificadas no processo de mercadorização em função do consumo de massa. Isso não significa, necessariamente, perda de qualidade. Todavia, o que é característico da cultura de massa, de modo relativamente independente do mercado, é que, enfim, quando posta para acolher os produtos das outras formas de cultura, de fato modificam em sentido mais simplificador.

É que a cultura de massas é feita para a apreciação simples, sem grandes exigências de disciplina e treinamento para a absorção. Assim, suas características são a do dualismo e a do maniqueísmo. Os ritmos são postos em esquema bipolares simples, as histórias são contadas como luta do bem contra o mal, as fórmulas mágicas se casam com fórmulas não mágicas sem as devidas mediações da arte da ficção. Neste caso, há aquilo que, em geral, formavam os produtos apresentados em programas de auditório, do Sílvio Santos ou do Chacrinha, e que hoje foram ampliados pelos reality shows ou por programas similares, como os do Faustão  e Luciano Huck. Os livros, no caso, são os de auto-ajuda, espiritismo e, é claro, os de estilo Paulo Coelho, e o próprio. A produção teatro, neste caso, nos dá as novelas populares. No âmbito do cinema, entra aí os filmes dramalhões simplificados ou, no caso mais específico, as séries policiais da TV.

Essas acepções de cultura que, enfim, norteiam a palavra cultura, no modo que a utilizamos cotidianamente, nos ajudam a mapear a situação, e isso melhora a nossa análise. Mas não é tudo. O que é importante entender é que, no limite, o que faz com que exista o elemento diferencial, diz respeito à sofisticação do produtor e do receptor de todo esse aparato, de toda essa produção.  Então, é aqui que podemos avaliar a frase de Gilberto Dimenstein “mulher pelada não é cultura”. É aqui que temos de ver se ele acertou ou não o alvo.

Será que “mulher pelada” não é cultura? No caso específico, Dimenstein está se referindo à revista Playboy. Portanto, a frase já começa com um engodo: não de trata de “mulher pelada”, mas de foto de mulheres. Portanto, a intermediação do trabalho do homem, que é uma das bases para falarmos em cultura, já está posta. Bem, não temos nenhuma dúvida que falamos, então, de um produto. Trata-se de um produto de mercado que visa o consumo de massa. Todavia, é exclusivamente isso?

Qualquer um com um curso simples de fotografia, com uma máquina fotográfica qualuquer e com um guarda roupa da sua própria casa pode se meter a fazer o trabalho? Basta saber apertar o botão da máquina fotográfica e ter uma moça bonita no seu próprio apartamento, e então temos uma revista? Caso fosse assim, todo mundo teria a sua revista. Mas, mesmo com a democratização dos aparelhos técnicos ao extremo, a Playboy continua solitária no mercado.

As fotos da revista Playboy da “moça pelada” não mostram qualquer moça.  Nem é o caso de ser uma atriz. A moça escolhida é a mulher de destaque histórico e geográfico do momento. Nesse sentido, a revista marca a história do Brasil, o cotidiano da nação é apresentado, de maneira simbólica por meio do corpo, no caso, o corpo da mulher. Por isso a Playboy aguça os olhares de todos, inclusive das mulheres ou, em certos momentos, mais ainda das mulheres. Há a necessidade de olharmos para o corpo da mulher e saber, naquele mês, quem somos nós, os brasileiros. Fazemos isso mensalmente e, depois, recuperamos as capas na Internet, e todos nós, independente de sexo, idade ou gosto, queremos saber “ah, como era a Christiani Torloni naquele tempo da novela X?” A pergunta não é sobre se ela era bonita ou não. Sabemos que era. A pergunta é sobre nós: como éramos nós naqueles anos. Queremos espelhos. Espelho do mundo que nos dê, então, pedaços de nós que ficaram nas roupas que usamos, imitando as novelas “daquele tempo” ou o cabelo da Torloni “naquele tempo.”

Esse é um dado que põe a revista, sem que exista dúvida, como um elemento da cultura nacional. No caso, na relação com o indivíduo, trata-se, sim, de cultura popular. Mas, ao mesmo tempo, na relação com a sociedade, pode subir como objeto da cultura universitária. Mas tem mais: a revista depende de um cenário vivo e de um conjunto de fotógrafos e de toda uma equipe técnica que, não raro, é tão grande quanto a de um bom filme. Cada mulher é apresentada, então, no contexto em que faz sentido seu corpo, considerando a razão momentânea pela qual o convite para posar foi para ela, e não para outra. Neste caso, a história e a geografia precisam de se casar com a arte da fotografia. A arte da fotografia precisa de todo o aparato do teatro e este, por sua vez, de um olhar estético que já está – ou deve estar – no contexto de quem passa pela cultura erudita ou por algo próximo dela. Não se faz uma boa foto da revista Playboy com diretores e produtores com capacidade de olho estético pobre.

Este aspecto estético se relaciona com o indivíduo comprador em um sentido pedagógico. Dá ao comprador o parâmetro social brasileiro do que é o erótico e diz, também, o que é a arte da foto erótica. No mundo todo é assim, não temos fugido à regra. Aqui, então, não há como não dizer que, do ponto de vista de se ceder ou não o “vale-cultura” para a compra desse tipo de revista, o voto tem de ser favorável. Aprende-se o belo assim. E não é verdade que “beleza não se põe na mesa” ou que “beleza não se discute”. Beleza é o que mais discutimos. Aprendemos, entre outros lugares, mas também com a Playboy, a ir da beleza da mulher para a foto bela, e isso é uma boa razão para se colocar o objeto cultural chamado revista da Playboy no saco do  “vale-cultura”

É claro que cada número da Playboy é um número. Um pode ser melhor, o outro pior. Mas a idéia é que o chamado “ensaio fotográfico” seja erótico – o erotismo fotográfico é uma arte contemporânea. Ele está, inclusive, no lugar de desafio posto pelo corte transversal que se impõe nas acepções de cultura, como as coloquei acima. Ele é o rio que arrasta das margens elementos das quatro acepções postas acima e, ao mesmo tempo, não faz suas águas caberem em nenhuma das comportas dessas quatro acepções de cultura.

Fica fácil perceber que a moça da revista Playboy, seja qual for, não tem que ser avaliada por uma frase chula como “mulher pelada não é cultura”. Essa é uma frase de quem tem pouco trânsito com a própria cultura. A fotografia da arte erótica, como tem sido exercida pela Playboy, é o grande desafio para o modo como classifiquei a cultura, nos parágrafos acima, e que, de maneira indireta, desafia também a classificação de Bosi, como ele a registrou na sua perspectiva, nos anos setenta.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

4 Comentários leave one →
  1. guebussy permalink
    08/12/2009 15:17

    Fala Paulo, como vão as coisas?

    Permita-me um contra-argumento a sua interessante exposição. Meu raciocício não é no sentido de negar o valor cultural da Playboy, mas no sentido de questionar o argumento de que essa revista “aguça os olhares de todos”, faz “saber, naquele mês, quem somos nós”, “dá ao comprador o parâmetro social brasileiro do que é o erótico” e que com ela “aprendemos…a ir da beleza da mulher para a foto bela”.

    Este questionamento, ele também, não é com relação à Playboy, mas muito mais geral: é com relação aos objetos de cultura. Com base em sua própria noção, muito boa, de que “no limite, o que faz com que exista o elemento diferencial, diz respeito à sofisticação do produtor e do receptor”, o modo como você caracteriza a recepção dessa revista é um modo sofisticado e não-trivial. Não acho que é o modo como a maior parte de nós, a maior parte da população pode de fato apreender o conteúdo nela presente. Uma pessoa bastante capacitada intelectualmente (pois teve condição de estudar) pode refletir, no limite, sobre tudo, sobre qualquer objeto cultural. Aquele pouco capacitado, em contrapartida, pouco pode apreender de qualquer objeto. Nesse sentido me parece que o fator cultural (a possibilidade cultural) está menos no objeto e mais no indivíduo.

    Quanto à qualidade da produção do objeto, acho um pouco exagerada essa defesa da revista. Eu não depreciaria a Playboy, mas também não diria que há nela nada demais se comparada com milhões de outras produções de cultura.

    Com isso não resolvo a questão de “sairmos do emaranhado técnico da dita falta de critérios”, só tento relativizar a solução que você dá.

    Abraço, André Guedes.

    • 11/12/2009 13:48

      Você que é sofisticado, use seu vale cultura para comprar sua revista, eu usarei o meu para a comprar a minha. Não fiz a “defesa” da Playboy, ela não precisa de mim. Ela está no mercado há anos, é sucesso. E nós nos educamos por ela, você não, mas eu sim. E muitos outros. Acho que merecemos ter nosso direito de comprá-la e, se entendi Paulo Freire, ela é bem cultura sim.
      Paulo

      • 11/07/2010 23:51

        Espero que entenda este comentário como uma crítica não no sentido de avaliação desfavorável e sim como uma discussão sobre critérios.
        Quando o senhor escreve:

        “…preocupadíssimo em saber se a revista Playboy vai ou não poder ser comprada pela ajuda governamental ao cidadão, lançou a frase “mulher pelada não é cultura”.

        e, em seguida, leio no original:

        “Foi aprovada uma emenda no Congresso permitindo que o vale-cultura seja usado para comprar jornais, revistas e gibis. Senadores argumentaram que, com isso, revistas como a “Playboy” seriam beneficiadas, mas a emenda foi aprovada assim mesmo.”

        Questiono se no “ataque” ao comentário do jornalista não houve uma certa distorção, já que a posição não é somente dele mas de alguns senadores (o que não é garantia de correta argumentação).

        Também questiono a afirmação de que Dimenstein, “no caso específico” está se referindo à publicação específica. Ele deve a ter usado como exemplo, talvez pela mesma ser quase sinônimo deste tipo de revista.

        E ainda o senhor:

        “Junto com isso, de subproduto, atacou também o que chamou de “gibis” (ele não usou, parece que propositalmente, o nome HQ), que também não seriam cultura.”

        Atacou “o que chamou”? O nome está errado? Revistinha, gibi, quadrinhos, revista em quadrinhos é como sempre chamei este tipo de publicação. HQ – história em quadrinho – seria um gênero. Acredito não ter entendido sua colocação que, para mim, não soou como uma crítica rigorosa.

        Já diante de sua afirmação de que há arte na Playboy, pergunto como um jornaleiro vai diferenciar esta manifestação dentre as várias publicações do gênero – àquelas que seu artigo mesmo confirma existir ao se referir à pobreza estética:

        “Não se faz uma boa foto da revista Playboy com diretores e produtores com capacidade de olho estético pobre.”

        Estas outras publicações deverão ser categorizadas como “de mulher pelada” e “fotos eróticas”? Quem definiria este padrão? Qual o limite entre o que é erótico e o que “vulgar” ou outro termo qualquer. Quem é um artista e quem não é?

        Isto sem entrar na questão do comprador: os que compram Playboy querem ver a participante do BBB em fotos eróticas ou peladas? Faz sentido discutir vale-cultura nestes termos?

        Enfim, seu texto é longo e posso ser prolixa algumas vezes. Acredito que as colocações sobre a Playboy e sua bagagem cultural foi um tanto exagerada sim se relativizarmos o pequeno texto de Dimenstein.

        Mas, independente da revista ser cultura ou não, a intenção de um vale (que, a propósito, não concordo com a existência) seria disponibilizar algo em busca de elevar a qualidade de vida. A compra de fotos de mulheres nuas, CD com letras do tipo “eu entro de novo, ela chupa meu pau, ela chupa meu ovo” ou “mas tem que fode gostoso, de jeito maneiro, e sabe que mulher é tudo puta
        mas que um barro sujo também faz parte da luta” é o que gostaríamos de ofertar com dinheiro público?

        Em uma entrevista, o ministro da Cultura diz que a cultura em geral é “inacessível para a maioria dos brasileiros”. Se fôssemos radicais na análise, talvez descobríssemos que todo o problema está na definição da palavra “cultura”.

        Se entendi algo sobre a posição de Paulo Freire , tudo que resulta da ação humana sobre o natural é cultura, um ponto de vista ponderado em um mundo onde prevalece o julgamento dos detentores de certos saberes.

        Nesta visão, “mulher pelada” é cultura e a frase só é chula para uma categoria de cidadãos. Qualificar a Playboy como o senhor fez não seria uma visão etnocêntrica?

        Ana Paula

        P.S.: Gostei do blog, discussões interessantes.

  2. 15/12/2011 19:34

    Ótimo texto. Vale lembrar que muitos pintores de renome se utilizavam do erotismo em suas telas. O povo tem o direito de escolher o objeto cultural que desejar, apesar de que na maioria das vezes é muito ruim,exemplo: música sertaneja universitária,forró de bandas como calcinha preta,filmes de comédia romântica,livros como crepúsculo,etc.

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