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O Vale-Namoro

11/12/2009

O Senador Mário Couto (PSDB-PA) é um entre os que se insurgiram contra o “vale cultura”. No discurso contra o governo disse que do modo que iam as coisas logo o governo daria a “bolsa-namorada”. Não acho que o governo de Lula tenha cogitado isso, mas, pensando bem, o Senador deu uma boa idéia.

Vários governos, no mundo todo, têm criado incentivos que à primeira vista parecem esquisitos, mas que logo se mostram úteis. Devido ao aumento populacional a China já fez uso de inúmeras maneiras de desmotivar os casais a terem filhos ou mesmo de aumentar a idade das uniões. Já chegou a dar rádio portátil e guarda-chuvas para homens que fizessem operações para não terem mais filhos. O Canadá, ao contrário, tem inventado várias estratégias para se conseguir o aumento populacional, até mesmo a idéia de importação de casais com propensão a terem filhos e ficarem no país. Há também o programa de incentivo para o namoro pela Internet, com vantagens para quem vier encontrar seu parceiro no Canadá e ali iniciar um relacionamento mais sério.

No Brasil, os problemas com os relacionamentos amorosos e sexuais, do ponto de vista político, são outros. Aqui, a gravidez precoce e a ampliação familiar desordenada têm causado dramas imensos na população mais pobre. Os efeitos disso tornam capengas nossas ações em favor do menor abandonado e a nossa preocupação com a moradia descente e outras necessidades. Isso sem falar nas mazelas derivadas, sendo a violência na periferia uma delas, a que mais salta aos olhos e infelicita a maior parte de nossas cidades. Ora, não a “bolsa-namorada” – um erro meio machista do senador –, mas, corretamente, a bolsa-namoro poderia ser um meio de colaborar para a solução de algumas de nossas mazelas.

Imagine uma bolsa-namoro que incluísse ajuda para os jovens poderem namorar e, em contrapartida, tivesse o aval destes no sentido de se integrarem em programas governamentais sérios capazes de prevenir a gravidez precoce e as DST, e que, além disso, fossem programas de aprendizado do planejamento familiar. De um lado, o governo daria o dinheiro para o namoro (teatro, cinema, passeio e motel), de outro lado, os jovens se comprometeriam em esquemas programáticos do tipo que citei, recebendo aí, também de modo gratuito, pílulas anticoncepcionais, camisinhas, etc. Esses programas, então, poderiam praticamente se constituir em verdadeiros centros de educação para a saúde pública da juventude. Com um apoio empresarial, esses centros se integrariam aos serviços desse tipo já existentes, feitos por ONGs e universidades. Ora, como tal serviço é prático e útil, e seria bem procurado pelos jovens, junto disso, como parte da contrapartida do jovem ao programa, o usuário que fosse analfabeto funcional teria de se inscrever em um curso de apoio para compreender o que lê e se integrar em um patamar profissionalizante condizente com o crescimento do país.

O namoro seria a porta de entrada para a compreensão do corpo, da saúde e um canal para a profissionalização. Quem deixa de namorar? Ninguém. Quem não se integraria em programas assim se a porta de entrada é o amor? Poucos.

Um programa assim elevaria o nível do assistencialismo do governo Lula, tornando-o quase um projeto político social-democrata – no melhor estilo. Pode-se dizer que, com algum empenho competente, um programa desse tipo chegaria, mesmo, a escapar do mero assistencialismo. Seria perfeitamente cabível de ser imitado pelo PSDB que, afinal, ainda mantém o nome de PSDB, ou seja, Partido da Social Democracia Brasileira. Por princípio, ao menos no nome, esse tipo de coisa deveria ser bem vista no partido, caso quisesse seguir sua carta programática inicial. Aliás, nem seria o caso do programa ter de ser visto como “imitado”, uma vez que a origem estaria na voz do Senador Couto. Seria um programa nascido de uma idéia do PSDB (depois que desse certo, eu juro que não contaria para ninguém que, no início, o senador Couto falou ironicamente). E quanto ao PT, esse seria um programa de aquecimento do mercado interno até mais poderoso que todos os já instituídos, garantido ainda mais a volta de Lula ao poder após o mandato que irá se iniciar em 2011 – não é isso, afinal, a única coisa que move Lula atualmente?

A bolsa-namoro deixaria todos contentes. Talvez um ou outro político, no programa da Ana Maria Braga, viesse reclamar. Mas, feito da maneira que expus acima, com as contrapartidas bem estabelecidas, qualquer reclamação, seria apenas coisa de ranheta. Seria coisa de “nhem-nhem-nhem”.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

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