Skip to content

O braço armado do CQC

22/12/2009

Há um número grande de jovens fascinados com a TV para além do que já se teve no passado recente. Para eles, o senso comum dos mais altamente escolarizados, que é a crítica da TV como veículo ideológico, não faz sentido.  O que alunos de ciências sociais e de grupos do pensamento de esquerda advogam, a saber, a idéia de que as TVs fazem quase que uma “lavagem cerebral” em muitos de nós, não é sequer vislumbrada pelos jovens. Claro que esses jovens não dizem que os programas não influenciam as pessoas, mas eles estão bem longe de imaginar o que, por outro lado, já se tornou pouco útil, que é o julgamento da TV como um órgão da ditadura do gosto e da reiteração do senso comum.

Esses jovens não são universitários e, se são, estão no início de seus cursos. Fazem parte de uma classe média abastada. Estudam em escolas particulares e têm acesso ao que há de mais atual no campo da tecnologia. Eles formam o grosso do público do Twitter. Eles estavam no Orkut, na luta para se diferenciar de um setor social que os estava ameaçando, ampliado a partir da inclusão digital da “Era Lula”. O Twitter deu a esse grupo mais rico a oportunidade de se isolar novamente. Feito em inglês, o Twitter é uma ferramenta simples, mas, para uma boa parte da população brasileira que estava no Orkut ou que ainda lá está, o domínio do português já é bem difícil, regras em inglês, então, impossíveis.

Notando isso, comecei a estudar alguns comportamentos desses jovens. Um desses comportamentos me chamou a atenção: o desejo de se mostrar diferente. Bem, até aí, nada de mais, faz parte da adolescência. Todavia, a questão é o modo como querem se tornar diferentes.

Afirmam não seguir ninguém, de julgarem tudo por uma razão pessoal, só deles. Dizem que podem optar. Afirmam ser livres e de terem capacidade crítica. Em um veículo de 140 caracteres, como podem mostrar tudo isso? Simples: aderindo a algo que possa representar isso, falsa ou verdadeiramente, e que fale mais de 140 caracteres ou que seja algo interno ao Twitter, porém em um meio superior, a TV. Diferentemente dos adultos no Twitter, que para tal identificação simbólica usam os partidos políticos (PT e PSDB e Lula), os candidatos (Dilma, Serra,Marina e Ciro) ou, então, campanhas (Doe Um Livro no Natal, etc.), os jovens pré-universitários ou dos primeiros anos da universidade adotaram o CQC – programa dirigido por Marcelo Tass, da Rede Bandeirantes. Adotaram no sentido de dizer: “sou CQC e isso faz com que todos saibam quem sou – sou diferente”.

Esses jovens não pertencem mais ao Orkut, não usam o Facebook, mas são parte do Twitter e do programa CQC. Para eles, o programa diz aos pais e ao mundo quem eles são: livres, rebeldes, com capacidade crítica e divertidos, principalmente divertidos. O humor é tudo para eles. Eles afirmam rir muito com o CQC. Eles vestem a camisa do CQC. Alguns, mais falantes e um pouco mais velhos, dizem que “antes os jovens não se interessavam por política”, e que esse foi o mérito do CQC. Sem o CQC os jovens seriam “alienados”. Outros não falam de política, mas insistem no “nível cultural do humor do CQC”. Tanto em um caso como em outro, esses jovens, uma vez perguntados sobre o que é que se destaca no programa, e que justifique tanto entusiasmo, não sabem apontar algo determinado. No entanto, continuam insistindo que “é o melhor programa de humor” da TV. Forçados contra a parede, não respondem positivamente, não conseguem mostrar um virtude concreta do programa, e então atacam o que seriam os concorrentes, principalmente o programa Pânico na TV, dirigido por Emílio, na Rede TV.

Durante várias semanas, alimentei críticas ao CQC, um pouco semelhantes às que alimentei contra o PT e o PSDB. Um grupo pequeno ajudou no controle das observações. As reações dos adultos foram tendendo a ficar mais violentas à medida que fui trazendo elementos contundentes para a crítica. Lembrar que Serra deixa o salário dos professores em 7 reais faz muitos simpatizantes tucanos perderem a compostura, deixam a racionalidade de lado e passar agredir-nos no Twitter. Falar que o Senador Azeredo (PSDB) está metido no “mensalão” é outro elemento de reação mortal. No caso do PT, relembrar o “mensalão” ou mostrar que Lula é lulista, e que escolheu uma candidata fraca, também faz o simpatizante a iniciar xingamentos no Twitter. O grupo de adeptos do CQC, por sua vez, é mais violento. Também mais verborrágico. Todavia, o ponto central, nesse caso, nunca é o conteúdo do programa. Todo o ataque ao conteúdo do programa é suportável por eles. O que os enraivece é quando começam a perceber que, talvez, o símbolo de status que escolheram para se diferenciar dos vindos da “inclusão digital” da “Era Lula”, não possa cumprir o que prometeu.

Como se consegue essa proeza de destronar o CQC para os seus partidários no Twitter? Ora, basta começar a dizer aquilo que, em parte, é verdade: o CQC é antes um programa de reportagens diferenciadas que um programa de humor, e essas reportagens não são irreverentes nem tão críticas como à primeira vista poderiam parecer. Em boa medida elas repetem o que o Pânico já fez na Jovem Pan,  quando essa juventude que aplaude o CQC não havia nascido. São reportagens que ironizam políticos e outros, no estilo que Sasha Cohen fez virar filme, mas nem sempre com o brilhantismo e ousadia de Sasha. Mas só, não há nenhuma forma de interpretação mais sofisticada ou, mesmo, nenhum esforço de aprofundar o humor. Fica-se a meio termo. A rebeldia da reportagem não tem seqüência na interpretação que, às vezes, pode muito bem ser mais conservadora que a do Jornal Nacional, conforme a notícia.

Quando se denuncia isso, então, com um pouco mais de pimenta pode-se conseguir que os jovens respondam de modo violento. Eles se tornam quase que insanos no momento que percebem – e lutam para não perceber – que não optaram pelo CQC, que o programa é optou por eles. Assim, pode-se mostrar que o programa se tornou uma ditadura porque, enfim, correu antes como garimpeiro de um específico setor social, justamente o que caiu na rede, do que como um programa delineado como de reportagem crítica com pitada de humor. Os jovens, então parecem não perceber que, na verdade, eles próprios, forçam um pouco aqui e ali para achar o CQC engraçado, e isso porque nunca imaginaram outra coisa, nunca leram ou viram algo diferente. Desconhecem os clássicos do humor universal e não tiveram oportunidade de assistir a nossa história, de Oscarito até Bussunda passando pela Família Trapo e pela TV Pirata. O que conhecem de diferente é, talvez, o Pânico, que procuram evitar dizer que assistem – pois o Pânico atrai o que é mais popular.

O Pânico não tem qualquer pretensão intelectual. O CQC mantém essa pretensão e ela é alta, e isso é o que vale para os jovens do setor social escolhido pelo CQC. Ora, esses jovens não estão procurando só entretenimento. Antes que entretenimento, eles estão procurando identidade social. Estão querendo dizer: “não somos gente que estuda na escola pública, não somos funkeiros, não somos a burra da Sabrina Sato”, não somos “bocós evangélicos”,  “somos gente que pensa” e que “tem nível”.

Isso fica bastante claro quando, no Twitter, aparecem adultos com alguma formação e que começam a dar combate, com argumentos científicos, às mensagens minhas que visam apenas irritar os jovens defensores do CQC. É como se a tia, também da classe média alta, uma vez universitária, estivesse muito contente que a meninas da casa tenham optado por um programa “de nível”, que “conscientiza”. Um programa rebelde de terno, ou seja, só aparentemente rebelde.

Há uma aproximação desta clientela do CQC e o eleitorado do PSDB de José Serra? Sim, claro que há. Não é algo de uma relação direta, mas que há algo que os aproxima, há sim. O Pânico é visto por eles como humor “sem nível”, e essa afirmação está na mesma linha em que eles mesmos ou, melhor, seus pais, aparecem às vezes no Twitter, quando então dizem que “Lula é analfabeto”. Essa ligação fica explícita em vários dos Twitters quando, ao serem fustigados, os simpatizantes do programa da Band se irritam acima do normal.

O que dá para notar é que a defesa dos CQCetes é relativamente autoritária. Quando colocados na parede, não podendo argumentar, tentam fugir usando uma justificativa pretensamente liberal: “ah, cada um gosta de um programa, respeito sua opinião mais tenho a minha”. Ora, uma vez colocados na parede novamente, quando a crítica ao CQC mostra que os quadros daquele programa são parecidos com os de outros, e inferiores com programas similares do passado, esses jovens se destemperam e passam a tentar desqualificar o interlocutor. Em seguida, fogem ou dizem que irão “dar block”, mas não dão, ficam mais tempo xingando. O pior é quando, nesse momento, podemos mostrar erros de português nas frases desses jovens. Nesse caso, ficam muito furiosos mesmo. Isso mostra, ainda que só em parte, que a questão do status contava mesmo, e que esse era o detalhe que não podia ser lembrado. É como se dissessem: Fascistas sim, mas analfabetos não.

©dez 2009 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

One Comment leave one →
  1. 09/09/2011 22:26

    Por indicação do meu professor de Sociologia e Filosofia procurei pelo Sr. na internet e acabei achando um de seus sites. Esse é o 1º artigo que leio e o achei bem interessante. Achei até mesmo comica a análise feita sobre o público do CQC, que se pode chamar até de hipócrita pela postura adotada…
    Não li com muita atenção os títulos das outras “matérias”, mas pelo que percebi alguns dos assuntos são bem acessíveis a jovens como eu. Continuarei lendo os textos e gostaria de parabeniza-lo, Sr. Ghiraldelli, por seu site que me agradou e interessou bastante.

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: