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Sandy, Antoine, Lula e Serra na terra do vírus de Boris

15/01/2010

Nem terminou o mês de janeiro e o vírus solto por Boris Casoy na virada do ano se manifesta em outros brasileiros. A já não mais adolescente Sandy usou o twitter para criticar a ajuda humanitária do Brasil às vítimas do terremoto no Haiti. Um dia depois, o cônsul brasileiro do Haiti, sem saber que estava sendo gravado, disse que a desgraça lá estava sendo boa para “nós aqui”, ou seja, ele, pois estava ficando “conhecido”. E não foi só isso, ele também acrescentou que onde “há africano” que “mexe com candomblé e macumba” tudo pode acontecer porque isso atrai mesmo o mal. (veja aqui)

Ambas as declarações, a de Sandy e a do cônsul George Samuel Antoine, refletem uma formação em que os princípios do iluminismo e do humanismo foram vencidos de modo fácil pelo senso comum do senhor dono de escravos. É como se a odiosa mentalidade dos velhos proprietários de terras do Brasil Colônia e Império jamais tivesse sido fustigada por Pombal. Ou pior, é como se o odor do chá dos Jardins da cidade de São Paulo, que ainda exala a determinação do bandeirantismo assassino de índios, comandasse nossa sociedade.

No caso de Sandy, pode-se imaginar uma garota tola que, não sabendo dos compromissos do Brasil com a ONU e a OEA e, talvez, nem tendo conhecimento dessas organizações por conta de ter fugido da sétima série do Ensino Fundamental, perdeu o rumo e não entende nada das responsabilidades internacionais de nosso país na reconstrução do Haiti. Talvez ela nem saiba que o Brasil já estava no Haiti com as Forças de Paz da Onu. Afinal, Sandy é Sandy. Já envelheceu, mas se descuidarmos é capaz de dizer que ainda é virgem e está se guardando para o casamento, motivo pelo qual ficou conhecida no Brasil todo.

No caso do cônsul, só a sua aparência física parece dizer tudo. Sua expressão mostra o asco que sente ao falar dos “africanos” e das religiões afro. O repórter que o entrevistou ficou completamente sem jeito. O homem não sabia que estava sendo gravado e soltou tudo aquilo que fica nas camadas mais envelhecidas da mentalidade daqueles que Ciro Gomes chamou de “elite branca” brasileira. Sua maldade em dizer que a desgraça lá era boa para ele aqui poderia ter sido sua frase infeliz. Ele, então, apareceria no outro dia, como Boris, pedindo desculpas. Mas não, ele não deixou por menos e realmente mostrou ser o homem da Casa Grande administrando com toda sua malignidade a Senzala: os que são da África trazem as forças do mal – é isso o que ele realmente pensa.

Também ontem, no twitter, apareceu um engravatado defendendo José Serra e Kassab. O motivo: o jornal da Record havia feito longa reportagem mostrando o descaso dos governos estadual e municipal com a juventude pobre em São Paulo, falando das hordas de drogados que atacam pessoas no centro da rica metrópole. Para o engravatado em “estilo PSDB-DEM”, não adiantaria Serra tomar alguma providência, porque o problema estaria na migração. Na verdade, o homem usou de um argumento manipulado por pessoas do próprio PSDB, que já vomitaram publicamente que o que faz os problemas sociais de São Paulo se ampliarem “são os nordestinos que”, vindo para cá “e não conseguindo colocação”, tiram a cidade do controle previsto. Quando lembrei a este homem que ele não ficava triste ao ver o metrô pronto, fruto do braço nordestino, ele ficou ensandecido. Quando viu que sua sobrevivência dependia daquele que ele transformava em bandido, passou a me agredir no twitter.

Estamos ainda um pouco distantes do nosso ideal de democracia de grupos e etnias. O que o governo federal que, enfim, se diz de esquerda, tem feito para melhorarmos?

Em uma democracia, ideais de igualitarismo não possuem outro canal de divulgação segura melhor que o aparato escolar público, gratuito e laico. Este aparato vigente, o que temos, não está funcionando. Todavia, o governo federal está propondo um piso salarial (que por si só já é inconstitucional) em que a hora aula do professor chega a ser menor que 7 reais, que é o que São Paulo vergonhosamente paga. Esse mesmo governo, que é capaz de dar 50 reais de “vale cultura” para qualquer trabalhador com carteira assinada – o que é ótimo –, se nega em reerguer a escola pública por meio de uma hora-aula mais generosa. Fica difícil pensarmos em uma mudança de mentalidade sem o instrumento da escola pública com qualidade.

Lula e Serra parecem unidos e atados quando se trata de tentar mudar a mentalidade da “elite branca” pelo trabalho escolar. Ambos não acreditam nem um pouco no ideal liberal de progresso pela educação, mas não por terem lido qualquer pedagogo ou crítico da escola – heróis dos anos setenta –, mas simplesmente porque, talvez, sejam tão tacanhos mentalmente quanto os herdeiros do bandeirantismo e do senhor de engenho. Talvez Paulo Freire realmente tenha razão quando diz que o opressor fica introjetado no oprimido. Lula e Serra, que se orgulham de um passado de combate às formas grosseiras de relacionamento da “elite branca”, agem de maneira igual a elas ao não se importarem em nada com a construção de um instrumento real de mudanças de representação mental, efetivamente a escola pública de boa qualidade. É uma pena que estejamos um pouco nas mãos desses homens.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

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