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Cota racial é política, cota social é esmola

07/03/2010

A pior defesa que conheço das cotas para negros e índios na Universidade brasileira é a dos que dizem que isso se insere em uma política educacional de compensação.  Em geral, essa defesa é feita pela esquerda. O ataque mais perverso que conheço contra as cotas raciais é o dos que dizem que defendem, ao invés destas, as cotas sociais. Em geral esse ataque é o da direita, em especial o que é dito pelos parlamentares do PSDB e DEM.

Cota racial advém de uma política contemporânea, em geral de cunho social-democrata ou, para usar a terminologia americana, mais apropriada ao caso, liberal. A cota social é esmola, tem o mesmo cheiro da ação de reis e padres da Idade Média, e aparece no estado moderno travestida de política.

A cota social não faz sentido, pois o seu pressuposto é o de que há e sempre haverá pobres e ricos e que aos primeiros se dará uma compensação, que obviamente não pode ser universal, para que alguns usufruam da boa universidade destinada aos ricos. É como se dissessem: também há pobres inteligentes que merecem uma chance para estudar. O termo social, neste caso, é meramente ideológico. Não se vai fazer nenhuma ação social com o objetivo de melhoria da sociedade. O que se faz aí é, no melhor, populismo, no pior, a mera prática a esmola mesmo.

A cota racial não pode ser posta no mesmo plano da cota social. Todavia, a sua defesa cai na mesma vala da cota social quando se diz que ela visa colocar os negros na universidade, até então dominada pelos brancos, para que se possa compensá-los pela escravidão ou pelo desleixo do estado ou pelo racismo velado ou aberto. Não! Cota racial não é para isso. O objetivo das cotas é o de colocar um grupo no interior de um lugar em que ele não é visto para que, assim, de maneira mais rápida, se dê o convívio social entre os grupos nacionais, de modo a promover a integração – o que passa necessariamente pelo convívio que pode levar ao conhecimento entre culturas, casamentos, troca de histórias e criação de experiências comuns. A questão, neste caso, é de visibilidade do grupo por ele mesmo e da sociedade em relação aos grupos.

No Brasil há miscigenação. E em grande escala. Ótimo! Mas não basta. Não é o suficiente porque há espaços físicos e institucionais, no Brasil, que não estão disponíveis para determinados grupos étnicos e isso promove uma má visibilidade da nossa população em relação a ela mesma. A população não vê o negro e o índio na universidade e, com isso, não formula o conceito correto de aluno universitário: o universitário é o estudante brasileiro de ensino superior. Ora, se você não vê o negro e o índio nesse espaço, o conceito não se forma de modo ótimo, o que é gerado na mentalidade, ainda que não verbalizado de maneira completamente clara, é o seguinte: o universitário é o estudante brasileiro branco de ensino superior. Isso é o pré-conceito a respeito de aluno universitário. Ele está aquém do conceito – por isso ele é “pré”. Ele pode gerar uma visão errada e, a partir daí, uma discriminação social, em qualquer outro setor da vida nacional.

Assim, para resolver o problema de brancos, negros, índios ou qualquer outro grupo, do ponto de vista social, no sentido de fazer com que todo brasileiro tenha acesso à universidade, a política não é a cota social. Também não é a cota racial. A política correta é a melhoria da escola pública básica, para que todos possam cursar, depois, o melhor ensino universitário. Agora, para resolver o problema da diminuição do preconceito em qualquer setor e, é claro, não só no campo universitário, uma das boas políticas é ter o mais rápido possível o negro e o índio em lugares onde  esses brasileiros não estão. Portanto, também na universidade; e é para isso que serve a cota racial. Isso evita a formação de uma mentalidade que se alimente de formulações aquém do conceito – há com isso a diminuição da formação do pré-conceito e, portanto, no conjunto da sociedade, menos ações prejudiciais contra negros e índios.

Foi assim que a América fez. As cotas ampliaram rapidamente o convívio e mudaram a mentalidade de todos.  Mesmo os conservadores mudaram! O preconceito racial que, na época de Kennedy, era um problema para o FBI e, depois, do Movimento dos Direitos Civis, diminuiu sensivelmente nos anos oitenta.  A visibilidade do negro se fez presente diminuindo sensivelmente o que o americano médio – negro ou branco – pensava de si mesmo. Foi essa política que permitiu um país com bem menos miscigenação que o nosso pudesse, mas cedo do que se imaginava, eleger um Presidente negro – algo impensável nos anos 60.

A ação em favor da cota social é um modo de não dar prosseguimento à política educacional democrática e, ao mesmo tempo, atropelar a política de luta contra a formação do preconceito racial. É uma ação da direita contra a esquerda. A esquerda defende sua política de modo errado ao não lembrar que a cota racial não é política educacional, é política de luta pela integração e pela ampliação da visibilidade de uma cultura miscigenada para ela mesma.  Cota não é para educar o negro e o índio, é para educar a sociedade! Ao mesmo tempo, a esquerda se esquece de denunciar que cota social, esta sim, quer se passar por política educacional e, na verdade, não é nada disso – é uma atitude ideológica conhecida, que sempre veio da direita que, sabe-se bem, sempre teve saudades de uma época anterior ao tempo da formação do estado moderno, uma época em que a Igreja e os reis saiam às ruas “ajudando os pobres”.

Os senadores que defendem a cota social e não a cota racial, no fundo imaginam o mesmo que os ricos da Idade Média imaginavam, ou seja, que os pobres existem para que eles possam fazer caridade e, então, como os pobres – de quem o Reino de Céus é dado por natureza, como está na Bíblia – também consigam suas cadeiras junto a Jesus.

Não deveríamos estar debatendo sobre cotas. Afinal, já as usamos em tudo. Por exemplo, fizemos cotas de mulheres para partidos políticos e, com isso, diminuímos o preconceito contra a mulher na política. Por que agora há celeuma em uma questão similar? Ah! É que a cota racial mexe com os brios dos mais reacionários. No fundo, eles não querem mesmo é ver nenhum negro ou índio em espaços que reservaram para seus filhos.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

5 Comentários leave one →
  1. 10/05/2010 19:53

    Paulo,

    Excelente texto. Primeiro artigo sobre ‘cotas raciais’ que eu li e me fez repensar algumas de minhas premissas e ‘pré-conceitos’ sobre o assunto.

    Cotas raciais como um mecanismo político ‘de luta pela integração’ faz muito mais sentido do que como ‘política educional’. O problema é que talvez essa não seja a forma mais eficaz ou ‘justa’ de promover tão integração.

    Injusta, talvez, porque como toda ‘ação afirmativa’, ao tentar ‘compensar’ desigualdades históricas, também acaba gerando desigualdade: um aluno — branco — que está melhor preparado do que outro deveria ser privado do acesso à determinada universidade porque o aluno menos preparado — mestiço ou negro — ganhou bonificação determinada por um sistema de cotas?

    Ineficaz, talvez, porque isso pode gerar mais preconceito racial — e social! — devido principalmente às injustiças ‘percebidas’ acima pela parcela da sociedade que se sentir prejudicada; violência decorrida de políticas públicas equivocadas ou mal implantadas são bastante conhecidas, inclusive nos Estados Unidos dos anos oitenta.

    Você cita com propriedade o Movimento dos Direitos Civis, mas talvez esqueça que esse movimento compreende muito mais correntes e ações do que seu próprio nome possa sugerir: Rosa Parks, Luther King, Malcolm X, Panteras Negras, Ku Kux Klan… qual deles representa melhor o movimento?

    A que custo ‘determinadas’ ações afirmativas geraram essa ‘integração racial’? Convulsão social? Ódio racial?

    Por fim, acho que você comete um equívoco ao sugerir que parte da sociedade brasileira esteja preocupada apenas “mesmo” (sic) em ver negros ou índios em espaços que reservaram para seus filhos. A questão, na minha opinião, envolve muito mais percepção de injustiça e desigualdade, equivocadas ou não, do que status quo.

    De toda forma, excelente texto. Me trouxe, sem dúvida alguma, outro ponto de vista valioso sobre o tema.

    Grande abraço,

    João Paulo Campello.

  2. 10/05/2010 19:55

    Paulo,

    Excelente texto. Primeiro artigo sobre ‘cotas raciais’ que eu li e me fez repensar algumas de minhas premissas e ‘pré-conceitos’ sobre o assunto.

    Cotas raciais como um mecanismo político ‘de luta pela integração’ faz muito mais sentido do que como ‘política educional’. O problema é que talvez essa não seja a forma mais eficaz ou ‘justa’ de promover tal integração.

    Injusta, talvez, porque como toda ‘ação afirmativa’, ao tentar ‘compensar’ desigualdades históricas, também acaba gerando desigualdade: um aluno — branco — que está melhor preparado do que outro deveria ser privado do acesso à determinada universidade porque o aluno menos preparado — mestiço ou negro — ganhou bonificação determinada por um sistema de cotas?

    Ineficaz, talvez, porque isso pode gerar mais preconceito racial — e social! — devido principalmente às injustiças ‘percebidas’ acima pela parcela da sociedade que se sentir prejudicada; violência decorrida de políticas públicas equivocadas ou mal implantadas são bastante conhecidas, inclusive — e principalmente — nos Estados Unidos dos anos oitenta.

    Você cita com propriedade o Movimento dos Direitos Civis, mas talvez esqueça que esse movimento compreendeu muito mais correntes e ações do que seu próprio nome possa sugerir: Rosa Parks, Luther King Jr, Malcolm X, Panteras Negras, Ku Kux Klan… qual deles representa melhor o movimento?

    A que custo ‘determinadas’ ações afirmativas geraram essa ‘integração racial’? Convulsão social? Ódio racial? … ?

    Por fim, acho que você comete um equívoco ao sugerir que parte da sociedade brasileira esteja preocupada apenas “mesmo” (sic) em ver negros ou índios em espaços que reservaram para seus filhos. A questão, na minha opinião, envolve muito mais percepção de injustiça e desigualdade, equivocadas ou não, do que status quo.

    De toda forma, excelente texto. Me trouxe, sem dúvida alguma, outro ponto de vista valioso sobre o tema.

    Grande abraço,

    João Paulo Campello.

  3. 10/05/2010 20:00

    Paulo, por favor autorize apenas meu 3o comentário (enviado em seguida).

    Os outros dois anteriores possuíam pequenos erros de ortografia.

    Grato,

    João Paulo.

  4. 10/05/2010 20:01

    Paulo,

    Excelente texto. Primeiro artigo sobre ‘cotas raciais’ que eu li e me fez repensar algumas de minhas premissas e ‘pré-conceitos’ sobre o assunto.

    Cotas raciais como um mecanismo político ‘de luta pela integração’ faz muito mais sentido do que como ‘política educional’. O problema é que talvez essa não seja a forma mais eficaz ou ‘justa’ de promover tal integração.

    Injusta, talvez, porque como toda ‘ação afirmativa’, ao tentar ‘compensar’ desigualdades históricas, também acaba gerando desigualdade: um aluno — branco — que está melhor preparado do que outro deveria ser privado do acesso à determinada universidade porque o aluno menos preparado — mestiço ou negro — ganhou bonificação determinada por um sistema de cotas?

    Ineficaz, talvez, porque isso pode gerar mais preconceito racial — e social! — devido principalmente às injustiças ‘percebidas’ acima pela parcela da sociedade que se sentir prejudicada; violência decorrida de políticas públicas equivocadas ou mal implantadas são bastante conhecidas, inclusive — e principalmente — nos Estados Unidos dos anos oitenta.

    Você cita com propriedade o Movimento dos Direitos Civis, mas talvez esqueça que esse movimento compreendeu muito mais correntes e ações do que seu próprio nome possa sugerir: Rosa Parks, Luther King Jr, Malcolm X, Panteras Negras, Ku Klux Klan… qual deles representa melhor o movimento?

    A que custo ‘determinadas’ ações afirmativas geraram essa ‘integração racial’? Convulsão social? Ódio racial? … ?

    Por fim, acho que você comete um equívoco ao sugerir que parte da sociedade brasileira esteja preocupada apenas “mesmo” (sic) em ver negros ou índios em espaços que reservaram para seus filhos. A questão, na minha opinião, envolve muito mais percepção de injustiça e desigualdade, equivocadas ou não, do que status quo.

    De toda forma, excelente texto. Me trouxe, sem dúvida alguma, outro ponto de vista valioso sobre o tema.

    Grande abraço,

    João Paulo Campello.

  5. liberelv permalink
    14/05/2010 19:20

    Em geral esse ataque é o da direita, em especial o que é dito pelos parlamentares do PSDB e DEM.”

    Por que você considera que a Social-Democracia é uma ideologia política conservadora e de direita?

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