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A Devassa na boca do professor de Ética

11/03/2010

Felizmente os professores de ética atuais não são os filósofos éticos gregos que, com seu comportamento, faziam a filosofia se espraiar e criavam discípulos. Caso fossem, correríamos o risco de ver não só um grupo de estudantes de filosofia saindo às ruas contra a cerveja, mas, talvez, todo um partido de militantes dessa nova postura ascética. Então, uma boa parte da indústria de bebidas entraria em colapso, causando desemprego. Talvez fosse a revolução anti-capitalista, tão esperada por alguns!

Esses estudantes seriam os discípulos do professor de ética Renato Janine Ribeiro. Para comentar a proibição da propaganda da cerveja Devassa, ele iniciou fazendo profissão de fé na sua aptidão para o gosto sofisticado quanto à bebida e ao sexo. Ele poderia ter iniciado seu texto falando da proibição, mas não, ele precisou, antes, falar de como perdeu o gosto, de uma vez, pela cerveja Devassa, quando a viu associada ao nome de uma atriz pornô. Cito a passagem que, confesso, achei um tanto engraçada:

“Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto”. (Folha de S. Paulo, 07/03/2010)

Qual o objetivo de, em um texto sobre a censura, antes de tudo se colocar como alguém que está acima de Paris Hilton e de cervejas que podem estar ligadas, nas propagandas, a mulheres? E será que a forma com que Janine Ribeiro falou do assunto “vale a pena discutir um pouco o assunto”?

O texto do professor de ética segue, então, de maneira ziguezagueante: usa vários parágrafos para titubear e, ao fim, não conseguir condenar o que foi, claramente, um ato de censura. Envolve discussões não cabíveis sobre “mulher objeto” (a essa altura do campeonato?) e suas relações com a “sensibilidade” do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – órgãos privado). Fala e fala e não diz nada.

Pode ser que Renato Janine Ribeiro ainda esteja traumatizado por conta das reações a seus últimos artigos. Um deles, em que ele deixou escapar um possível gosto (nada sofisticado, diga-se de passagem) pela pena de morte, lhe deu boa dor de cabeça. Teve de enfrentar um Jô Soares que, como um professor mais velho, puxou sua orelha dizendo “o que se passou nessa sua cabecinha Renato?”. Isso sem contar os artigos anteriores, de defesa envergonhada do governo mensaleiro, quando ele ainda era membro da Capes. Pode-se lembrar, também, o artigo sobre a garota hostilizada na Unibam, em que ele, de modo muito estranho, poupou a escola em um momento em que todos apontavam para o descaso para com o ensino em uma universidade como aquela. Sim, tudo isso pode ter deixado o professor de ética sem jeito.

Todavia, lá pelo final do artigo, Janine Ribeiro parece encontrar o eixo: ele faria, sim, uma objeção à propaganda: ela ligaria sexo e bebida de um modo a não fomentar a imaginação, uma vez que seria uma propaganda sem erotismo. Ah, então aí começamos a entender a razão de Janine ter começado retratando o seu próprio gosto sofisticado. Ele é adepto do erotismo e, em nossa sociedade, há muito sexo e pouco erotismo. Ou seja, há uma perda da imaginação.

Ora, dito assim, eu endossaria a afirmação de Janine. A geração dele, mais que a minha até, foi leitora de Marcuse. Talvez não ele, que não vem da tradição frankfurtiana da qual eu venho, mas como jovem dos anos 60 ele sem dúvida soube bem absorver a crítica da época: vivemos uma civilização que, para ser civilização, cortou os pulsos de Eros. Tenho dito isso até hoje. Quanto mais há a venda de Viagra e quanto mais precisamos de propaganda para consumo de pornografia, mais isso denota que estamos apáticos, que não nos erotizamos mais, que nos deixamos sucumbir pelos ditamos da “sociedade do trabalho” (Marx) ou da “sociedade administrada” (Adorno) ou coisa parecida. Sim, mas será que é isso que Janine quis dizer?

Penso que há em Janine, na verdade, menos sofisticação do que ele quer fazer parecer e, talvez, um rabicó de puritanismo. Convido o leitor para concordar ou discordar de mim. Vejamos, vamos ao que nos interessa: a propaganda.

Quem viu a propaganda da Devassa pode simplesmente dizer: foi a propaganda menos apelativa ao sexo que já vi em relação a bebidas. Foi, sem sombra de dúvidas, na comparação com outras, em que partes sexuais da mulher são enfatizadas (principalmente as nádegas), uma propaganda que mostra o voyerismo do fotógrafo em cenas belíssimas. Nada de “devassidão”. Muito menos de pornografia. A propaganda é um elogio ao trabalho fotográfico do erotismo de algo nível. Renato Janine Ribeiro ou não viu a propaganda, o que é gravíssimo para um professor que escreve comentando sobre ela, ou simplesmente viu e, por conta de algum drama psicológico, não conseguiu fazer a distinção entre o erótico e o pornográfico, entre o que faz a imaginação andar e o que faz a imaginação parar.

O que faz a imaginação andar na literatura expressa em livros é uma coisa. As possibilidades da TV são outras. Quando criticamos a TV por ela não provocar a imaginação que o livro pode fomentar, cometemos uma injustiça, além da burrice implícita na comparação. A TV é imagem e som, e de modo rápido. Fazer TV imaginativa implica em reconhecer os limites e as possibilidades desse meio por ele mesmo, e não em comparação a outros. O publicitário da Devassa acertou a mão. A propaganda é boa e nada tem de ofensiva – não há nem mesmo cena de nudez ou qualquer gesticulação pornográfica.  Assim, talvez tenhamos de ir menos pelo saber superficial de lições de ética e mais pelo conhecimento filosófico amplo. Um filósofo deveria antes desconfiar de algo que é um segredo de Polichinelo: o Conar não cedeu a qualquer imperativo ético novo ou velho, ele certamente se viu no interior da guerra econômica por mercado – e isso sim foi a devassidão que caiu sobre a Devassa. O resto é frescura – infelizmente, frescura que não vem do sabor da Devassa ou de qualquer outra cerveja.

Bem, abram uma cerveja, brindem a Epicuro e esqueçam falsas lições de ética!

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo. http://ghiraldelli.pro.br

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4 Comentários leave one →
  1. dtoliveira permalink
    10/06/2010 9:44

    Gostei muito de Renato Janine. Não perdia uma coluna semanal nem a revista mensal onde ele escrevia. Via os programas na tv universitaria que ele participava. Comprei mais de um livro dele (!)
    Ele falava sobre o amor. Eu era adolescente.

    Passado o tempo as contradições no seu discurso foram vistas, assim como pontos de vazio…
    Desinteressei sem rancor.

    Revendo hoje, fica obvio que ha muita retorica e “menos sofisticação do que ele quer fazer parecer”, como dissestes. Bem menos.
    Mas ele passa bem na midia, não?!

    Como viestes agora colocar a “devassa na boca do professor de ética” eu me permito reagir:
    Gostei muito do seu artigo. Parabéns, professor.

    A proposito da relação propaganda de cerveja-sexualidade feminina, francamente, as cenas de Paris Hilton não me chocam (mais…?!).
    No Brasil cerveja é quase sempre vendida por mulher bonita mostrando partes do corpo. Se polêmica existe, tem alguém tirando proveito dela…
    A originalidade desta propaganda, a meu ver, é a “loira platinada e magrela”. Realmente longe do estereotipo de “mulher bronzeada e bunduda” que se vê geralmente.

    Esse problema da sexualidade espalhada por toda parte me preocupa com mais intensidade quando toca diretamente às crianças (menos portanto que a cerveja, pois q destinada aos adultos). Tens algo sobre o assunto?

    A infantilização da sexualidade na musica, por exemplo, isso sim é chocante.
    Vi uma vez uma menininha de uns 5 anos fazer toda uma “apimentada” coreografia de um ‘hit’ do carnaval da Bahia. Natural pra ela, pois a letra dizia: “passa talquinho, papai, no meu corpo cheirosinho”.
    Os gestos que ela fazia não sei descrever agora, mas o pavor de pensar o que serão as futuras gerações educadas nesse contexto de sexualização exacerbada ainda esta em mim.

    Passarei a visitar esse blog que acabei de conhecer e gostei.

    P.S. Desculpe-me a ausência de acentos.

  2. 22/01/2011 11:38

    Fala sério, mercado de Propaganda no Brasil é muito bom, sempre aparecem ótimos publicitários, não consigo imaginar de onde Janine tirou esse asco pela cerveja apenas por ter Paris hilton no comercial;
    Na moral, Eu gostei do comercial, simplesmente é o que acontece na realidade, uma pessoa que gosta de cerveja que acaba instigando uma multidão de pessoas, que compartilham o mesmo gosto claro.
    Os gestos e a menção a musica de strip-tease foi muito boa sacada. Além do mais quantas crianças com menos de 16 anos iria entender a relação de uma loira se exibindo com a cervejinha + uma legião de gnt olhando + Musiquinha do (param ram ram ram …. ).
    Como minha tia diz e realmente eu tbm compartilho da idéia.
    ” Muitas pessoas criticam apenas por criticar, assim como muitas pessoas olham apenas por olhar.”
    Ainda acho que a censura nesse caso foi inválida.
    Comerciais são por si só com o intuito de atiçar as pessoas a comprarem determinado produto, o que elas fazem com o produto em mão já é de responsabilidade de quem o compra. Eu não conheço criança que beba cerveja, mas eu conheço uma pilha de Pais que quando compram cerveja e Vodka (pelo menos eh o que acontece aqui em casa) sempre compram um refri e suco, qnd se coloca tudo a mesa, por mais que jah tenha sido dito, sempre se repete a seguinte frase, ” Isso é nosso e isso é de vocês, naum queiram pegar o que não é para vocês pq de nada vão lhe servir, isso é pra adulto e isso é pra quem não é adulto.” e pronto … sempre funcionou.
    Não acho que uma propaganda com a Paris Hilton toda sexy se exibindo com uma cerveja seja capaz de influenciar minhas primas, se o comercial fosse pra ser censurado ou repudiado, no mínimo deveria ser pelos motivos certos.
    Se no Brasil existem Pais que não sabem educar os filhos e nem guiar as crianças pra que façam o que elas deveriam fazer, os pais é quem não poderiam assistir aos comerciais e voltarem pra escola… Afinal de contas quem determina o que seremos no futuro são aqueles que colocam placas indicando o caminho certo a seguir desde pequenos.

    • 29/05/2011 11:19

      Janine anda dando bola fora faz tempo. Não sei o que aconteceu com a cabeça dele, mas começou a falar coisa maluca e tola depois que passou pela Capes e pelo governo. Aliás, um período onde andou agindo um pouco na base do gangsterismo.

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