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Por que “o filósofo de São Paulo”?

Paulo na Frente do MaspA Filosofia de São Paulo

São Paulo é uma cidade filosófica par excellence. Defendi essa “tese” no começo dos anos oitenta, em alguns artigos. Volto agora a tocar no assunto, uma vez que ao retornar à cidade de modo “definitivo”, eu que nasci e estudei filosofia aqui, notei que era necessário agir assim. 

Voltando a morar em São Paulo, após estar no exterior, notei que a cidade merecia um “carinho filosófico”. Comecei a conversar aqui e ali, e a escrever sobre a cidade. Algumas coisas publiquei, outras fiz para serem lidas em encontros. Outras para amigos do exterior. Mas não escrevi sobre os problemas da cidade. Se fiz isso, foi muito pouco. Não sou sociólogo ou economista. Sou filósofo. E foi com esses olhos que tenho visto São Paulo.

Santa Ifigênia, SP O que é São Paulo, para um cara que é filósofo da cidade de São Paulo? O que é São Paulo para o cara que é filósofo da cidade de São Paulo? Alguns colegas e amigos da imprensa daqui e de outros estados (e, também do exterior) têm me chamado assim, “ei, você, o filósofo da cidade de São Paulo”. No início isso surgiu como uma brincadeira para atingir o meu “bairrismo”. É claro que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.

Nunca escondi meu amor pela cidade, mas, confesso, em determinados momentos eu acabei falando tanto de São Paulo para pessoas que apesar de viverem aqui não eram daqui, que elas acabaram por retribuir com um “ataque”. Era uma forma de ataque, sim, vir com  essa conversa de “filósofo de São Paulo”. Pois filósofo é alguém que deve viver no âmbito das idéias, e não deve ter pátria, região ou cidade. Então, “municipalizar” um filósofo é uma brincadeira, sim, mas uma brincadeira ferina. Tem lá seu objetivo de tentar colocar o filósofo na berlinda. Eu não fiquei irritado com isso. Mas, é claro, não cultivei a tarja.

Todavia, ao começar ficar mais presente na imprensa não exclusivamente da área acadêmica, a tarja começou a perder sua força de crítica para virar um elogio. Assim, paulatinamente, nos últimos cinco anos mais ou menos, comecei a ser procurado para “falar de São Paulo”. Principalmente no aniversário da cidade, um colega ali e outro amigo lá acabavam por pedir um texto de homenagem à cidade. Acabei fazendo poucas homenagens, pois elas se tornaram, na verdade, apologias da cidade (algumas circulam na Internet, e eu acabei perdendo o controle desses textos). Foi então que um dia liguei para um jornal que pedia um trabalho especial sobre filosofia (que nada tinha a ver com a cidade) e fui atendido por uma voz feminina, que disse lá do outro lado: “seu Paulo? O filósofo da cidade?”. Engasguei. Mas quando vi, era o caminho: “a coisa pegou”. E então, em vez de eu tentar me livrar, resolvi assumir a expressão. Passei a assinar, então, principalmente para os textos mandados para o exterior, a “titulação” adquirida: “filósofo da cidade de São Paulo”.

Depois, resolvi ir adiante também com os textos daqui. Isso facilitou minha vida na imprensa. Pois em geral nunca acertavam pronunciar ou escrever meu nome (“ghi” é com som de “gui”), e assim a idéia de “o filósofo da cidade de São Paulo” acabou caindo bem para todos. E tem funcionado.  Mas, enfim, posso dizer que há uma “filosofia de São Paulo”? Algo que mereça que alguém possa ser filósofo dedicado ao local? Creio que a resposta não está apenas na vida acadêmica da cidade ou nas direções culturais que ela tomou. Não é por esse caminho que eu vou. A filosofia, assim vista, é algo bem maior e depende da história da cidade. A resposta minha, que tem a ver com o modo como assino meus textos, está na geografia da cidade. É levando em conta a geografia da cidade, até mais que sua história, que imagino que alguém possa ser “filósofo da cidade” da maneira como eu acredito que posso assinar. A geografia de São Paulo indica claramente um tipo de urbanização que requisita uma especial consciência filosófica. Qual? A que diz o seguinte: “São Paulo se imagina cada vez mais uma megalópolis que deve caber inteirinha na Avenida Paulista quando da vitória”. Que vitória? A vitória de cada grupo que se coloca como “grupo na cidade”.

Da parada gay à comemoração de vitória em eleições; da comemoração da vitória de um time ao elogio a uma festa religiosa, eis que a cidade “vai para a Av. Paulista”. A maior cidade da América Latina se imagina como possível de caber inteirinha na Paulista – este é o ponto básico da consciência filosófica de São Paulo. Ou seja: nossas diferenças não nos empurram para fora da cidade, como muitos advogaram. Nossas diferenças nos empurram para o centro da cidade, e é isso que realmente pensamos. E isso é literal e metafórico ao mesmo tempo. Ocupar a Paulista em dia de festa, seja ela qual for, é um direito. Não é um direito político, embora também seja. É um direito emanado da consciência filosófica da cidade. A cidade se imagina como enorme e se sabe como enorme. Mas esse gigante quer caber num lugar que literalmente ele não cabe, mas que metaforicamente tem de caber. Tanto faz que termina por caber também literalmente.  Quando entendemos isso, começamos a entender a filosofia da cidade de São Paulo. Quando percebemos que essa idéia é a de todos que chegam em São Paulo, começamos a entender São Paulo.

Morando em bairros distantes do centro ou perto, em bairros pobres ou ricos, tradicionais ou não, o habitante da cidade de São Paulo entende a filosofia da geografia da cidade: em dia de festa, São Paulo cabe todinha na Avenida Paulista – é isto! Todos podem se encontrar ali, na Paulista. Tenho o maior orgulho de ser chamado pelos colegas de hoje de “filósofo da cidade de São Paulo”. Há um instinto democrático nisso tudo, que nasceu da cidade e com a cidade. 

Paulo Ghiraldelli Jr. “O Filósofo da Cidade de São Paulo”. Nascido no bairro da Liberdade em 23/08/1957. Batizado no “dia de São Paulo”, 25 de janeiro, em 1958, na Igreja da Santa Ifigênia 

Veja aqui “Meu Banho de Néon“, publicado na Revista da Folha de S. Paulo.

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