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Tia Alice Ghiraldelli, por Paula

  

Tia Alice Ghiraldelli

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No meio de tanta gente, tantas tias, ela era só olhos. E o olhar profundo Tia Alice, Lygia, Paula e Frannão combinava muito com o resto da face, parecia sempre brava pra quem não conhecia. Mas era mesmo. Não comigo, nunca. E só posso verbalizar essa “brabezinha” porque tenho certeza. Descobri que eu não era equivocada de pensar assim Natal passado, quando minha vó disse que tinha tirado a mais brava das irmãs Ghiraldelli. E eu imediatamente soube quem era. Ela devia mesmo ser brava, não era só impressão. Mas comigo não foi, nunca. Somente sensata: “É, seus olhos ficam melhor com sombra clara, mas se vc gosta da escura, pode usar”. Frase de muita autoridade.

Como pode alguém pedir, e ganhar (!) um baralho (de plástico, enfatizo) de Natal? É preciso ter autoridade. Se bem que, a Zenaide me pediu uma sombrinha de dobrar. E eu dei. Acho que presente estranho deve ser coisa de irmã, de família. De ghiraldellis, talvez.

Eu tinha comprado uma caixinha artesanal, dessas de mdf com veludo dentro, decorada, prá dar de presente de aniversário, pra ela pôr o tal baralho. (No fundo, eu tinha achado apenas um baralho um presente muito incompleto). Guardei a caixinha pra me lembrar dela. E tem como esquecer?

Não, não tem.

Essa semana mesmo lembrei dela o tempo todo. Estava vendo fotos antigas, e mostrei várias vezes pra minha mãe “olha, mãe, a tia Alice” no monte de fotos, e ela lembrou de várias histórias, ficamos pensando nela.        

Quando alguém morre a gente sempre fica pensando em todas as oportunidades que teve pra dizer que gostava da pessoa, que ela era importante. Dessa vez, acho que isso não ficou me martelando tanto porque no último natal, eu chamei-a num canto e disse o quanto ela era importante para mim. Eu não usei todas as oportunidades, mas pelo menos disse, num momento de amor.Todas as minhas tias irmãs de meu avô são muito arrumadas e festeiras. Tia Alice não era diferente. Mas o mais gozado de tudo é concluir que, depois de pensar nisso, se ela soubesse que ia morrer teria feito sua festa de aniversário uma semana mais cedo. Não é? Tenho certeza que seu poema-modo-de-vida era esse: 

 Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
nem para o estio,de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa,
o amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
 (Ricardo Reis, vulgo, Fernando Pessoa)  

Porque ela vivia o amarelo lindo de cada folha, em cada outono. E eu me lembro de quando era criança ficar treinando pra não confundir tia “Alice” com tia Lila”, o monte de “eles” me deixava confusa. Aprendi pelo olhar. E é engraçado, estranho e muito triste pensar que agora não tenho como confundir mais.

Paula Ramos Ghiraldelli

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