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Professor, teacher e coach

10/05/2010

Para os colegas e alunos da Pedagogia e Licenciaturas da UFRRJ

O professor professa. Talvez este seja o grande problema técnico do campo de formação de professores no Brasil. Professar é fazer profissão de, é declarar. Eis aí o drama da língua portuguesa. Nossos mestres professam. Eles têm de professar – são professores. Ora, não se pode negar que a origem do professar tem a ver com os primeiros cristãos: os que professavam a fé em público, os que declaravam publicamente terem determinadas crenças. Essa situação tinha, sim, a ver com ensinar. Quem declarava sua fé em público, ou seja, dava o testemunho da fé, podia então ensinar a outros do que se tratava ser cristão. Declarar é uma forma de contar, de ensinar. Ensinar é declarar.

O interessante é que no mundo de língua inglesa, o professor é apenas o professor universitário, o que lida com adultos. Quem lida com crianças e jovens não é o professor, e sim o teacher.

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A Devassa na boca do professor de Ética

11/03/2010

Felizmente os professores de ética atuais não são os filósofos éticos gregos que, com seu comportamento, faziam a filosofia se espraiar e criavam discípulos. Caso fossem, correríamos o risco de ver não só um grupo de estudantes de filosofia saindo às ruas contra a cerveja, mas, talvez, todo um partido de militantes dessa nova postura ascética. Então, uma boa parte da indústria de bebidas entraria em colapso, causando desemprego. Talvez fosse a revolução anti-capitalista, tão esperada por alguns!

Esses estudantes seriam os discípulos do professor de ética Renato Janine Ribeiro. Para comentar a proibição da propaganda da cerveja Devassa, ele iniciou fazendo profissão de fé na sua aptidão para o gosto sofisticado quanto à bebida e ao sexo. Ele poderia ter iniciado seu texto falando da proibição, mas não, ele precisou, antes, falar de como perdeu o gosto, de uma vez, pela cerveja Devassa, quando a viu associada ao nome de uma atriz pornô. Cito a passagem que, confesso, achei um tanto engraçada:

“Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto”. (Folha de S. Paulo, 07/03/2010)

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Cota racial é política, cota social é esmola

07/03/2010

A pior defesa que conheço das cotas para negros e índios na Universidade brasileira é a dos que dizem que isso se insere em uma política educacional de compensação.  Em geral, essa defesa é feita pela esquerda. O ataque mais perverso que conheço contra as cotas raciais é o dos que dizem que defendem, ao invés destas, as cotas sociais. Em geral esse ataque é o da direita, em especial o que é dito pelos parlamentares do PSDB e DEM.

Cota racial advém de uma política contemporânea, em geral de cunho social-democrata ou, para usar a terminologia americana, mais apropriada ao caso, liberal. A cota social é esmola, tem o mesmo cheiro da ação de reis e padres da Idade Média, e aparece no estado moderno travestida de política.

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A filosofia da América para o mundo

24/02/2010

1. O esquilo e o pragmatismo

“Viram o Jorge? Diante de tantas opiniões e choros, ele pegou o caminho mais objetivo, desconsiderou questiúnculas e foi direto ao ponto. Resultado: deu a solução rápida. Jorge é um cara pragmático”.

O parágrafo acima mostra o que a maioria das pessoas imagina que é “um cara pragmático”: alguém que desconsidera firulas e consegue realizar os objetivos que lhe foram postos. No caso aí, Jorge é pragmático e, ao mesmo tempo, bem avaliado – elogiado até. Todavia, na maioria das vezes, quando  alguém é chamado de pragmático, está se falando de uma pessoa exatamente como o Jorge, mas avaliado como de caráter duvidoso por ter “desconsiderado questiúnculas” e visado acima de tudo seus objetivos. No geral, no linguajar popular (especialmente no Brasil), pragmático é alguém que age segundo uma visão exageradamente fixa apenas nos resultados e, assim fazendo, não se importa com os “inevitáveis efeitos colaterais”. Assim, a noção comum de pragmático é a de uma pessoa que, no melhor, evita o dispensável para resolver uma situação e, no pior, faz o que tem de fazer sem considerar reflexões e ponderações sobre o prejuízo de outros envolvidos no caso, direta ou indiretamente.

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A Culpa é do Corpo

10/02/2010

Quando Descartes montou sua metafísica, distinguiu o que chamou de corpóreo, o que ocupa espaço, do que chamou de pensamento, o que não ocupa espaço. Instituiu o que os historiadores da filosofia chamam de “dualidade cartesiana” de corpo e mente. Uma das noções metafísicas de substância, vinda de Aristóteles, era a de “sujeito de predicados”. Os filósofo modernos uniram isso: se a substância é sujeito de predicados e uma das substâncias é o pensamento, lhes pareceu mais ou menos correto dizer que o sujeito é o pensamento. Daí para dizer que a mente e o sujeito são uma e mesma coisa, bastava menos que um passo. Foi assim que a noção de identidade individual se fez. O sujeito filosófico ou, em termos sócio-políticos, o indivíduo, passou a ser caracterizado pelos seus pensamentos – o que se expressa na sua linguagem e atos.

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Feios, gordos, dessexualizados e infelizes

10/02/2010

“Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Sim, mas o difícil é amar o feio.   Arthur Danto tem insistido que a arte não se relaciona mais com o belo. Talvez até ocorra o contrário, há objetos em galerias que visam arrancar todo tipo de expressão dos visitantes, menos a de prazer com belo. Umberto Eco, diferentemente, acredita que há, sim, um belo em nosso tempo, mas que não está mais na arte e sim na mídia, algo voltado para o que ele chama de “consumo”.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, o que consideramos belo está profundamente ligado a nós mesmos. Nossa cultura atual é narcísica – certamente! Mas não devemos notar isso para colocar dedos em riste. É bom aqui apenas tomar distância tendo consciência histórica. O narcisismo é apenas o desdobramento do processo, marcadamente moderno, de surgimento do sujeito como peça importante de nossos discursos e de culto do indivíduo como elemento produtor e produto da política – exatamente uma das facetas da boa doutrina liberal. Isto tem empurrado o belo na direção de nós mesmos. É tão verdade isso que quando falamos em belo, para a maioria de nós, não vem à mente algo como uma obra arquitetônica ou uma paisagem, mas a figura do corpo humano. Aliás, nem mesmo o corpo humano representado no mundo das artes plásticas, mas o corpo, em nosso imaginário, como já se apresenta no mundo da mídia. Um mundo que se funde, é claro, com o mundo do consumo estratificado.

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Direita ou esquerda?

28/01/2010

Direita ou esquerda? Há quem diga que nem uma nem outra posição é válida agora. Todavia, essa posição para além da divisão clássica não existe. As pessoas se comportam de determinado modo na política e, enfim, isso é facilmente identificável como direita e esquerda, bem mais hoje do que há dez anos.

A direita e a esquerda democráticas respondem a ideais postos na Revolução Francesa, os de igualdade, liberdade e fraternidade. Ambos concordam em tese com a fraternidade, mas divergem sobre igualdade e liberdade. Na tradição européia, que ainda é a nossa, apesar de nossa crescente tendência ao bipartidarismo que lembra os Estados Unidos, a direita diz que a igualdade que a esquerda prega precisa demais da ação do Estado e, por isso, vai terminar por sufocar as liberdades individuais. A esquerda retruca que a liberdade que a direita quer é retórica, pois ninguém consegue ser realmente livre em uma sociedade em que a distância social é excessiva.

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