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cefaCEFA. Paulo Ghiraldelli Jr. é membro fundador, e atualmente diretor, do Centro de Estudos em Filosofia Americana, entidade de pesquisa, ensino e divulgação sem fins lucrativos. O CEFA foi criado por um grupo de filósofos e contou com ajuda de Richard Rorty e Donald Davidson no exterior. Este último tornou-se seu presidente de honra.

PIS. Paulo Ghiraldelli Jr. é membro fundador da Pragmatism International Society (PIS), uma asssociação fundada nos Estados Unidos para congregar os filósofos dedicados aos estudos de filosofia americana e, em especial, os pragmatistas. Atualmente a PIS é responsável pela Contemporary Pragmatism, tendo também participação efetiva na publicação da Blackwell do Companion to Pragmatism. Possui membros de todas as partes do Planeta e está em franco crescimento. Caso você queira saber mais sobre o pragmatismo, veja aqui a nossa Pragmatism Cybrary

Contemporary Pragmatism Companion to Pragmatism Richard Rorty

Publicações em pragmatismo no exterior: Contemporary Pragmatism, editada por John Shook e Paulo Ghiraldelli (Nova York e Amsterdan). A Companion do Pragmatism (com verbete de Paulo Ghiraldelli Jr). Richard Rorty (de Peters e Ghiraldelli, publicado na Europa e Estados Unidos).
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GT Pragmatismo. Paulo Ghiraldelli Jr. é fundador do GT-Pragmatismo da ANPOF e exerceu a coordenação deste por duas gestões. Está na vice-coordenação, junto com Susana de Castro. Ambos editam pelo GT a Revista Redescrições.
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Filosofia Americana – o que é isto?

Os brasileiros que não são do “ofício da filosofia” estranham quando escutam a expressão “filosofia americana”. A filosofia ainda não é vista como algo possível de ter raízes na “América”.Para a opinião comum, para o “homem popular”, cada país tem sua marca, e quando se trata de ver as qualidades de um local e não suas mazelas e infortúnios, os retratos são interessantes: o Brasil, sabemos, é o país do samba e do futebol, a Argentina é o país do tango, o Japão é a nação da tecnologia e das miniaturas, a França cuida da moda e das revoluções, a Alemanha é o país dos intelectuais herméticos, a Espanha é a pátria das touradas e do catolicismo, a Itália é a casa do Papa e da boa comida e assim por diante. E os Estados Unidos?

Os Estados Unidos são o local do cinema, da literatura e do fast food. Filosofia? Não! Poucos no Brasil, mesmo entre professores de filosofia, lembram que os Estados Unidos deram ao mundo filósofos que inspiraram Nietzsche, como Emerson, ou que motivaram Habermas, como Dewey, ou que alimentaram intelectualmente Bergson, como William James. É difícil no Brasil as pessoas saberem que Derrida e Umberto Eco tiveram suas melhores discussões com Rorty, e que Foucault é muito mais um ídolo nos Estados Unidos, hoje, do que na França. Mesmo Marcuse, o alemão que coordenou o “boom” da leitura frankfurtiana na América, e que, enfim, sobreviveu ao nazismo por estar nos Estados Unidos, não é visto – o que é um erro – como um filósofo que só fez o que fez por estar nas terras do Novo Mundo. Há um véu nos olhos dos brasileiros escolarizados, eles não conhecem os Estados Unidos, não sabem da força e do poderio da filosofia americana.Alguns brasileiros, que conhecem um pouco de filosofia americana, ainda assim tomam Quine como filósofo da ciência somente, e até esquecem que Thomas Kuhn era americano. Não raro, os que estudam filosofia política, não notam que Rawls e Nozick são americanos e somente como americanos poderiam ter escrito o que escreveram.Mas o resto do mundo não participa desse dificuldade brasileira, desse tropeço, digamos assim. No mundo todo, do Irã ao Japão, do Paquistão à Romênia, da Rússia à Índia, da Argentina à Espanha, os melhores professores de filosofia e muitos bons estudantes de várias áreas estão lendo Bernard Williams, Robert Brandom, Hilary Putnam, Martha Nussbaum, Julia Annas, Susan Haack, Gregory Vlastos, Donald Davidson, Willard Van Orman Quine, Richard Bernstein, Daniel Dennett e, é claro, Richard Rorty.

Os americanos deixaram de ser colonos embrutecidos, criaram suas universidades, transformaram-nas nas maiores e mais ricas instituições de ensino e pesquisa do mundo e, enfim, passaram a produzir filosofia “como gente grande”. O mundo desenvolvido, hoje, sabe bem que não é possível mais fazer filosofia sem ler e dialogar com os herdeiros dos colonos pioneiros que, em um passado não muito distante, andavam armados nas ruas, prontos para duelos. O próprio Max Weber, dizem, não se encontrou com um jornalista porque o achou muito rude, uma vez que este havia participado de um duelo com revólver um dia antes do encontro. Weber, como diziam, achava que o duelo de gente civilizada era o de espadas – mesmo já proibido na Alemanha de seu tempo. Todavia, Weber rendeu homenagem às universidades americanas – ele sabia que elas superariam as da sua velha Europa.

Entre nós, Monteiro Lobato e Anísio Teixeira se preocuparam, no passado, em trazer para cá a cultura e a filosofia americanas. Anísio criou o INEP e foi um filósofo discípulo de Dewey, um de seus melhores scholars. Sem Anísio Teixeira, talvez não tivéssemos produzido um Paulo Freire, por exemplo. Mais recentemente, Jurandir Freire Costa na psicanálise, Luiz Eduardo Soares na antropologia, Alberto Tosi na ciência política e eu, Paulo Ghiraldelli, na filosofia e filosofia da educação, tentamos dar impulso ao pensamento filosófico americano no Brasil. Não somos os únicos, é claro, mas somos os que assumiram que os pensadores americanos não são apenas “pensadores a mais”, são fundamentais hoje em dia. O Centro de Estudos em Filosofia Americana é parte desse trabalho que não pode mais esperar, que é o  trabalho de … descobrir a América. Ou fazemos isso, ou vamos ficar olhando de longe o mundo passar.

02 de julho de 2007

© Paulo Ghiraldelli Jr.

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Pragmatismo e Neopragmatismo
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  • Campo metafísico: a experiência

· Podemos apostar que tudo no mundo é material (da ordem do físico). Ou podemos apostar que tudo no mundo é espiritual (da ordem do pensamento). Ou, ainda, podemos querer optar por dizer que o mundo comporta o espiritual e o material.

· Quando adotamos a primeira aposta, podemos ficar incomodados com a idéia de que teremos de fazer do pensamento uma forma do físico, ou manifestação do físico. Quando ficamos com a segunda aposta um incômodo equivalente surge, pois não conseguimos nos convencer que tudo no mundo é, de certo modo, da ordem do pensamento. Bem, a terceira opção seria a mais razoável. O que é pensamento é pensamento, e o que é físico é físico. Acabaram-se os problemas? Claro que não. Aqui também há um incômodo: surge a dúvida de se somos capazes de explicar como que ocorre a relação entre o físico e o pensamento. Começamos com a célebre glândula pineal de Descartes e a partir daí vamos de explicações em explicações que, cada vez mais, explicam menos.

· O pragmatismo surgiu no momento em que essa terceira opção começou a nos parecer um caminho pouco promissor. Afinal, qual o benefício em se dizer que o mundo é feito de uma coisa ou outra, ou de ambas? Qual a razão para nos mantermos fiéis à idéia de que o mundo tem de ser feito de uma substância? Por que Aristóteles teria de ainda estar vigente, com o conceito de substância, martelando nossas cabeças? Não seria melhor antes mudar de pergunta do que ficar tentando encontrar uma resposta para uma pergunta já desgastada?

· O pragmatismo veio exatamente com essa proposta: vamos parar de achar que o mundo tem de ser feito de uma substância, vamos tomar o mundo segundo uma idéia menos atávica. Ele pode ser aceito como um conjunto variável de relações. Ora, relações? Sim – só relações! Em vez de falarmos de coisas, vamos falar de relações. Podemos continuar usando os termos que até então estávamos usando, um tanto reificados como pedra, homem, terra, leão, computador, amor e frauda. Claro, não vamos abandonar de uma hora para a outra nossa linguagem, que é nosso pensamento. Mas podemos imaginar que cada uma dessas “coisas” é um feixe contingente de relações.

· Assim, quando fazemos isso, nos libertamos da idéia de substância – algo perene, imutável, que seria o núcleo de cada coisa – e passamos a viver com a idéia de que tudo está em contínua mudança segundo as relações que vão se estabelecendo. Essas relações podem ganhar nomes diferentes, segundo o campo que recortamos para conversar, falar, estudar ou investigar. Um desses nomes é “experiência”.

· Pragmatismo vem de pragma, que vem de prasso, que quer dizer “prática”, “feito”, “façanha” e similares (e que origina também a palavra práxis). Ora, o que é considerar a prática e o feito senão considerar a experiência? Experiência é exatamente isso: o que se monta conjunturalmente pela prática, feito, façanha – práxis. Assim, o mundo é um conjunto de relações, ou, falando de outro modo, um conjunto variável de experiências. Caso o homem queira tirar as melhores maneiras de se conduzir no mundo, ele que entenda essa característica relacional e prática do mundo, ele que dê atenção para a experiência. Está foi a novidade do pragmatismo.

  • Campo epistemológico: o método para a verdade.

· Um caminho (inicial) para termos em mãos algo que se possa chamar de conhecimento é o de aceitar a definição de Platão; chamaríamos conhecimento a “crença verdadeira justificada”.[1] Nessa acepção, para ter em mãos crenças que sejam conhecimento é necessário ter também enunciados verdadeiros. Tendo isso em mente, William James definiu o pragmatismo como um “método para a verdade” antes que uma “teoria da verdade”.

· A verdade é um qualificativo que podemos dar a determinados enunciados. Os lógicos e epistemólogos dizem que podemos ser correspondentistas e dizer que um enunciado X é verdadeiro se e somente se ele corresponde ao fato que descreve. Ou então que podemos ser coerentistas e dizer que um enunciado X é verdadeiro se e somente se ele é coerente com outros enunciados (verdadeiros) que dizem respeito ao que ele trata. Por sua vez, James disse que o pragmatismo não tinha que optar por uma ou outra postura desse tipo, e sim apenas mostrar como que um investigador sério deve agir se quer ter conhecimento. Um investigador sério jogaria suas fichas de aposta no enunciado que, diante da experiência – do investigador e de outros –, fosse aquele que estivesse mais cotado como candidato a ser verdadeiro. Assim, estaríamos levando a experiência em consideração, de modo a não jogar fora a prática da vida e na vida, a cada investigação científica ou corriqueira.

  • Os pioneiros: a diferença na acepção de experiência.

· Charles Peirce (1839-1914), William James (1841-1910) e John Dewey (1859-1952) foram os três estadunidenses que criaram o pragmatismo enquanto uma escola filosófica. As diferenças nucleares entre eles apareceram exatamente na noção de experiência.

· Peirce tendeu a considerar a experiência como experimento, dando ênfase para a prática controlada, como a que se faz em laboratório. James tendeu a ver a experiência como experiência de vida, em um sentido psíquico – vivência, como poderíamos dizer. Dewey chegou a uma noção mais ampla, tomando a noção de experiência como experimental e vivencial, além de dimensioná-la historicamente.

· Por isso mesmo, em Dewey um enunciado verdadeiro passou a ser aquele apresentado como um forte candidato a ser aprovado diante da “assertibilidade garantida”. O que é? Assertibilidade garantida é a propriedade de um enunciado de ser uma afirmação com o máximo de garantias possíveis – sendo que sabemos que toda garantia é válida apenas dentro de um tempo e de um lugar.

  • O neopragmatismo

· Os neopragmatistas – Richard Rorty (1930-2007) e Hilary Putnam à frente – passaram a considerar como elemento central da experiência a linguagem. Mas não a tomaram como um código pré-instituído. Caso assim fizessem estariam tratando a linguagem segundo uma visão essencialista, contrária à postura pragmatista. Eles a tomaram como comunicação.

· Resumindo ao máximo: os neopragmatistas aprenderam com a filosofia analítica a dar a devida importância à linguagem, mas entre dizer que nos comunicamos por causa de que possuímos a linguagem ou somos usuários de alguma linguagem por causa de que nos comunicamos, ficaram com esta última acepção. Desse modo, endossaram uma perspectiva mais próxima da do segundo Wittgenstein e do pragmatista americano que dominou a cena da filosofia analítica em meados do século XX: Willard Van Orman Quine (1908-2000).

· Por isso, buscaram trazer Donald Davidson (1917-2003) para as fileiras do pragmatismo. Davidson foi o filósofo que, a partir de Quine, insistiu na idéia de que a linguagem não é um clube ou um partido ao qual nos filiamos, ela é um se vivo em evolução darwiniana, que é feito e reconstruído sem direção predeterminada, e o que conta para tal é a nossa imaginação em comunicação.

· Bibliografia

· Shook, J. & Margolis, J. A companion to pragmatism. Nova York: Blackwell, 2006.

· Ghiraldelli Jr., P. O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

· Leal, A. & Ghiraldelli, P. Pragmatismo e questões contemporâneas. Rio de Janeiro: Arquimedes, 2008.

· Rorty, R. & Ghiraldelli, P. Ensaios pragmatistas. Rio de Janeiro: DPA, 2006.

· Taylor, M, Helmut, S e Ghiraldelli, P. Pragmatism, education, and Children. Nova York e Amsterdam: Rodopi, 2008.

02 de julho de 2007
© Paulo Ghiraldelli Jr.

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